Press - Interviews
25th October 2001
Interview for Loud! #14

ThanatoSchizO
Cânticos Negros

Click for a larger view"Schizo Level" marca a estreia discográfica dos transmontanos ThanatoSchizO, ou talvez não, se pensarmos que na realidade o colectivo representa a evolução natural dos Thanatos, autores de "Melégnia" e presentes em inúmeros concertos por este país fora. A Loud! falou com Guilhermino Martins, o principal mentor do projecto.

Porquê a mudança de nome?

No fundo esta mudança ocorreu de uma forma natural; quando partimos para a gravação deste álbum sofremos alterações no seio da banda e houve três factores que contribuíram para essa mudança. Em primeiro lugar, termos constatado que existem diversos grupos no mundo a usarem este nome, pelo menos no espaço cibernético encontramos sete ou oito bandas de diversos estilos, desde o rock gótico até aos bem conhecidos Thanatos [holandeses da área do death metal]. A segunda razão deve-se a querermos acrescentar o sufixo SchizO, que nos pareceu inteiramente coerente com o som que praticamos e também com a referida mudança de elementos. No fundo é uma evolução na continuidade: a banda é a mesma, houve dois elementos que mudaram mas as raízes continuam.

Neste trabalho o baixo está a teu cargo, assim como as guitarras...

Exacto. O nosso baixista teve graves problemas de saúde durante a digressão Chaos & Disorder - com os The Firstborn e Holocausto Canibal - e decidiu retirar-se do grupo. Para concluirmos a série de concertos já planeada começámos a trabalhar com um baixista convidado, mas quando entrámos em estúdio decidi ser eu a gravar as partes do baixo. Já estamos a preparar os concertos promocionais deste disco e para isso estamos a trabalhar com um baixista de Vila Real que, esperamos, integrará a banda a curto prazo.

Mencionas Vila Real e, para os leitores, talvez seja bom referir que vocês são de Santa Marta de Penaguião, Trás Os Montes. Não deve ser fácil arranjar músicos por aí...

Temos muito orgulho de ser de Santa Marta de Penaguião. Três quintos do grupo são de cá e o nosso local de ensaio também fica em Santa Marta de Penaguião. Costumamos por vezes referir que somos de Vila Real apenas por ser o sítio mais conhecido aqui perto. Quanto a encontrarmos elementos...é uma ideia errada pensarem que não é fácil. Eu próprio fui assolado por esse medo quando nos vimos sem baixista, mas foi muito fácil arranjar elementos para compor o colectivo. Apesar de não haver aqui uma grande cena na zona de Vila Real/Régua/Lamego, existem muitas pessoas que tocam instrumentos e, por isso, os novos elementos surgiram de forma naturalíssima.

Para além do baixo e da guitarra também tocas órgão...piano. Como vais fazer para executar estes instrumentos ao vivo?

Apenas toquei piano num tema e órgão noutro, porque decidimos que devia ser eu a fazer isso, já que a nível de concepção desses temas fui eu que compus as partes desses instrumentos. Nós possuímos um teclista e ele sabe perfeitamente as partes dele, é um elemento formal e pertence oficialmente à banda. Também fiz vozes no disco, mas tudo isso é natural, porque eu e o anterior baixista éramos os compositores do grupo e com a sua saída passou todo o encargo para mim, ou seja, houve um acréscimo de responsabilidade.

Dentro da série de convidados aparece o Nuno, dos Holocausto Canibal. Essa aparição deve-se à digressão que fizeram juntos?

Sim. Nós temos uma série de bandas de que somos bastante amigos e com quem sempre pudemos contar ao longo do tempo. A participação do Nuno é natural, até porque devido ao trabalho em que estive envolvido não houve tempo de inspiração para criar o solo no tema "Withering Art". Ele chegou ao estúdio, mostrou-nos o solo e gravou. Já que falas de participações...é também de destacar a presença do Joca - o actual vocalista dos Demon Dagger - que nos ajudou, quer nas vozes secundárias quer ao nível do sampling.

Esse contacto surgiu antes dele pertencer aos Demon Dagger...

Sim, ele entrou para a banda já depois de ter gravado este disco e eu já o conheço desde a sua banda anterior, que gostava de apelidar de Young Gods portugueses. Nós dois temos um projecto do qual daqui a algum tempo poderá sair alguma coisa, mas a nível de sampling o Joca ajudou-nos bastante já que é algo que não conseguimos dominar muito bem.

Este disco foi uma surpresa, já que nos concertos não se tinha notado esta evolução. Com os diversos caminhos que tentam percorrer neste álbum, qual é o tema que consideras mais próximo da vossa orientação actual?

Se considerares - quando falas em orientação actual - os temas novos que já estamos a trabalhar [já que o nosso objectivo e acordo com a editora é voltar a gravar no fim do ano], o tema mais próximo é o tema "A Day". Ou seja, a cadência não será tão brutal e rápida, mas essa pressão estará presente ao nível do ambiente e da letra.

Esta diversidade que encontramos no álbum resulta dos muitos grupos com quem tocaram nas mais de sessenta datas que fizeram antes de o gravarem?

Se calhar não. Pessoalmente acho que esta parafernália de abordagens que fazemos ao metal resulta da diversidade de estilos de música que ouvimos. Quando nos propusemos a criar a banda desde logo impusemos que não houvesse limites à criação, não íriamos fazer um projecto de black, death ou thrash...e por aí adiante. E isso resulta na forma como construímos os temas, já houve alguém que disse que éramos uma versão de Mr. Bungle meets Extreme Metal. Nós pegamos em metal considerado extremo e depois desconstruímos numa forma "schizo". Isso resulta de termos as mentes abertas e não possuirmos limites em termos de criação.

É essa mentalidade aberta que vos permite inserir no meio do disco uma faixa de spoken word, como é o Cântico Negro do José Régio?

Não creio que seja isso...Há bandas muito extremas que usam o spoken word para expressar melhor os seus sentimentos. Esse poema é algo que nos toca muito. Lembro-me que foi a minha primeira aula de filosofia, num já longínquo décimo ano, que foi passada a estudar esse poema. Mais tarde vim novamente a enfrentar o texto e dei-lhe uma nova interpretação, com a qual a banda concorda e penso que nos identifica perfeitamente. Fazemos aquilo que queremos, estamos isolados daquilo que se vai fazendo no meio e isto não é um manifesto contra ou a favor do que se passa, mas a atitude é essa: nós somos nós, fazemos aquilo que queremos e somos imunes a qualquer tipo de crítica que vá contra essa nossa atitude de estarmos "orgulhosamente sós".

Emanuel

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