Press - Reviews
30th October 2008
Turbulence review, Senhoras do Metal

THANATOSCHIZO - Turbulence
Burning Elf Records


Em 2004, após dois registos de longa duração, os ThanatoSchizO (TSO) tinham para nos oferecer o seu melhor álbum até então. Turbulence constitui o ponto de convergência das múltiplas vertentes da sonoridade TSO, cuja exploração começara nos registos anteriores. Simultaneamente, este foi momento da consagração da Senhora do Metal Patrícia Rodrigues como vocalista e intérprete de relevo na sonoridade da banda, tendo passado a repartir a composição lírica com Eduardo Paulo (vocalista).

Turbulence traz consigo um som mais coeso e definido, o que não quer dizer que os TSO tenham abandonado a esquizofrenia que os caracteriza e lhes dá nome. Muito pelo contrário.

Este terceiro longa-duração da banda trasmontana traz-nos um doom/death metal de carácter progressivo e ambiental, que afirma a consistência técnica dos músicos e as suas capacidades de composição e interpretação. Os momentos thanatos (na mitologia grega Thanatos era o deus da Morte) e os momentos schizo (loucura, esquizofrenia) interligam-se na perfeição como se tivessem nascido para uma [dir-se-ia improvável!] harmoniosa parceria. Apropriadamente intitulado Turbulence [e digo apropriadamente, porque ninguém passa por esta turbulência e fica indiferente], este registo oferece-nos momentos que vão da quase completa esquizofrenia [o tal schizo], a ritmos sincopados, passando por paisagens experimentais, ambientes soturnos e melancólicos de profusas melodias, conjugados com riffs pesados e grunts de arrepiar [quem sabe, o tal thanatos].

Cada uma das sete longas composições (a mais curta tem 6.17 minutos) constitui uma identidade própria, contendo momentos rápidos e mais lentos [mas nunca demasiado lentos], configurando em cada um deles esse lugar indefinido onde os TSO se movem, algo entre a violência e a extrema fragilidade, algo entre thanatos e schizo. Um lugar único, permitam-me acrescentar.

À conquista de mares nunca antes navegados [ou melhor, talvez pouco ou raramente navegados], os TSO espalham tempestades da sua loucura saudável. É como se a matéria-prima em bruto fosse o peso dos instrumentos e tudo o resto um terreno infinito de possibilidades inexploradas. Sempre demasiado originais para se manterem dentro dos cânones de um género, a música dos TSO faz-se entre extremos, buscando um contraste que se ancora não só na vasta secção instrumental mas também, e de forma evidente, nas vozes díspares e harmoniosamente articuladas dos vocalistas que nos oferecem não apenas dois, mas três registos distintos. Desde o tom melódico e directo de Patrícia Rodrigues, aos grunts de Eduardo Paulo, que oscila entre os berros death metal e um tom límpido e melancólico, nunca a dicotomia funcionou tão bem. "Beauty and the Beast" seria um rótulo possível para a magnífica prestação destes vocalistas, mas a verdade é que esta denominação está longe [muito longe!] de começar, sequer, a descrever o que estes dois fazem.

E já que falamos de [palavra terrível!] rótulos, Patrícia Rodrigues tem sido comparada com Sharon den Adel (Within Temptation). Confesso que não vejo qualquer semelhança. Aliás a voz de Patrícia tem a qualidade rara de não se parecer claramente com nenhuma outra que tenha ouvido, soando fresca e suave, forte e desesperada, adequando-se a cada momento. A apontar alguma influência, podemos talvez reconhecer a inspiração em Anneke Van Giersbergen (Agua de Annique, ex-The Gathering) ou Cristina Scabbia (Lacuna Coil), sem que, porém, soe como uma ou como outra. Mais do que uma cantora, Patrícia demonstra ser uma verdadeira intérprete, não se limitando a entoar as melodias, transmitindo um sentimento em cada palavra, um desespero quase real. Como vocalista tem, acima de tudo, sensibilidade – algo raro e que se estende também ao vocalista masculino. Eduardo Paulo explora, de forma harmoniosa, os dois registos da sua voz: a sensibilidade melancólica do seu tom limpo e quase frágil e a força destrutiva dos seus magníficos grunts. Um excelente trabalho vocal que se apoia em toda uma estrutura musical completamente desconcertante, complexa e perturbadora.

Este é o fabuloso mundo dos TSO, concebido pelas melodias e riffs de guitarra de Guilhermino Martins, pelo trabalho intrincado do baixo de Miguel Ângelo, pelas atmosferas criadas pelos sintetizadores a cargo de Filipe Miguel e pela excepcional secção rítmica de Paulo Adelino. Dinamismo é, aqui, a palavra-chave e a explicação para a turbulência constante em que nos vemos mergulhados a partir do momento em que carregamos no play. As guitarras têm uma presença avassaladora, oscilando entre a velocidade dos riffs e uma prestação mais emocional e dramática. Na sua esquizofrenia saudável, os TSO exploram territórios étnicos, com esporádicos apontamentos arábicos, asiáticos e africanos, para os quais contribui a presença dos sintetizadores e dos ritmos tribais que Paulo Adelino retira habilmente da bateria e restante percussão.

Liricamente, são explorados temas obscuros, algures entre a dor e o desespero, sendo que as letras constituem um trabalho de características quase literárias, que foge à estrutura típica verso-refrão-verso-refrão-verso dramático-refrão ad infinitum. Mais do que simples letras de música, os TSO criam verdadeiras composições poéticas.

Sweet Suicidal Serenade abre o disco de forma bombástica e retumbante. Com riffs de guitarras contagiantes e um refrão que se recusa a abandonar a nossa mente durante semanas a fio, é talvez a faixa mais memorável do registo. Os grunts de Eduardo entram a abrir, viciando-nos quase de imediato. Uma desaceleração traz uma súbita melancolia, emocionalmente decalcada pela voz de Patrícia e explodindo de forma gloriosa no tal refrão absolutamente catchy. E depois disto é praticamente impossível fugir. Destaque para os riffs viciantes de guitarra e para o trabalho dos dois vocalistas que, nesta faixa, têm um dos melhores momentos de combinação dos seus timbres, tornando este num dos temas mais dinâmicos do álbum.

Segue-se Traces, uma composição absolutamente indescritível. A cada audição descobre-se algo que antes parecia nem lá estar. Esta música é, em si mesma, uma autêntica viagem pelo estranho mundo TSO, que nos leva desde a suavidade ambiental, transportando-nos para um lugar mais perto da natureza, tecido pelos sintetizadores profusos, arrastando-nos através do tom limpo de Eduardo Paulo, que nos conduz por uma espécie de sonho perturbador que logo se transforma em berros graves, por sobre a insistência das guitarras, e com a voz de Patrícia a sobrevoar o peso como se dançasse. A música torna-se mais agressiva, os grunts de Eduardo dominam por momentos, até a voz melodiosa de Patrícia os envolver. Mas o seu tom não traz sossego à nossa alma já angustiada, mas sim mais alguma inquietação, por se erguer numa espécie de desespero quase tangível. A bateria torna-se insistente mas a viagem está longe de terminar. Patrícia tem ainda mais umas doses de desespero para nos oferecer em momentos de devaneio vocal e a sua emoção é palpável, exercendo um contraste arrepiante com os guturais de Eduardo. Uma vez rendidos a Traces, o espírito rende-se ao resto do álbum.

Soured Memory repousa sobre os magníficos poderes dos teclados de Filipe Miguel e da tal precursão meio tribal, que vai desde logo marcando o compasso de influências mais díspares e étnicas. A dinâmica vocal é mais uma vez acentuada, com a magnífica combinação entre grunts profundos e as tonalidades mais limpas de ambas as vozes, masculina e feminina, destacando-se claramente esta última, pela profunda fragilidade emocional aqui interpretada.

inExistence traz toda a magnificência da melodia deste jogo entre thanatos e schizo, com a bateria e a guitarra a encenarem uma dança vertiginosa. A interpretação de Patrícia aflora fragilidades e desesperos, dançando harmoniosamente sobre o peso, enquanto os guturais de Eduardo pontuam de violência os espaços deixados em branco. A música mergulha em ambiências suaves com Eduardo a entoar um dos versos de que mais gosto – “No longer will I dig/My grave under your body”. A composição termina com um glorioso solo de Guilhermino. Um momento brilhante.

Untiring Harbour realça o lado mais experimental e melancólico, sem dispensar o peso. Destaque para a excelente prestação do tom mais límpido de Eduardo, que revela ser o companheiro mais que perfeito para os tons melódicos e delicados de Patrícia. Destaque também para a omnipresente guitarra e para o trabalho de percussão de Paulo Adelino.

Freedom Subways é, a par de Sweet Suicidal Serenade, outro dos temas mais viciantes. Começa com percussão, logo seguida das guitarras e dos grunts de Eduardo. O refrão é incontornável, os guturais absolutamente contagiantes. Ainda assim, há tempo para alguns momentos mais soturnos e experimentais, com o baixo a estabelecer linhas intricadas e a voz de Patrícia a destacar-se pela sua interpretação dramática, mas nada teatral. Sem dúvida, a minha preferida de todo o álbum.

Por fim, thanatos e schizo unem-se para um final feliz em Void, a composição mais experimental de todo o álbum. Os cerca de 10 minutos de Void oferecem-nos tudo aquilo que melhor os TSO sabem fazer. Marcada por diversas influências étnicas, Void tem momentos de calma e de agressividade, passagens gloriosas de sintetizadores, riffs de guitarra [alguns incrivelmente schizo], culminando, inclusive, com um furioso riff trash a grande velocidade. Toda a parte instrumental é de destacar nesta faixa, mas os sintetizadores têm aqui o seu momento de apogeu, conjuntamente com as incursões tribais da bateria. O trabalho da guitarra é também de destacar, criando passagens melodiosas e momentos de uma autêntica esquizofrenia voraz. Absolutamente indescritível.

Tudo isto se junta em diferentes camadas, que absorvemos lentamente, até elas se infiltrarem completamente em nós e já não sermos capazes de fugir. Este não é, de maneira nenhuma, um disco de fácil digestão. Exige tempo e muitas audições para se entender a esquizofrenia dos TSO, e compreender que essa esquizofrenia não é sem sentido. Aliás, há um sentido e os TSO sabem qual é, e para ele caminham a passos largos. A nós resta-nos procurá-lo em múltiplas audições deste eclético e híbrido registo, tão brutal quanto atmosférico. No final, todas as portas abertas para novas evoluções, orientações e inspirações culminaram num brilhante Zoom Code. [16,5/20]

Inês Martins
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