Press - Interviews
11th October 2004
Interview for Feedback Magazine #10 (Portugal)

Click for a larger viewOs ThanatoSchizO são o exemplo do que a cena portuguesa pode ser. Talentosos, originais, extremos, persistentes e trabalhadores, os seus elementos transpiram simpatia, sensibilidade e um amor inegável pela música. «Turbulence» é já o terceiro disco do colectivo de Santa Marta de Penaguião, e alia aos momentos vanguardistas e progressivos do último «InsomniousNightLift» um inegável peso superior e uma vertente mais extrema. Conversámos com o guitarrista Guilhermino, e trocámos também dois dedos de conversa com a vocalista feminina Patrícia para tentarmos perceber o que motiva, o que faz andar e que essência têm estes heróis do Death Metal vanguardista nacional.

Guilhermino Martins:
Click for a larger viewO «Turbulence» é o vosso melhor álbum de sempre?

Não tenho a menor dúvida. Desde o início das nossas edições discográficas - com o EP «Melégnia» - desde aí nós conseguimos sempre superar-nos e fazer sempre melhor. Quer em termos de prestações individuais quer em termos técnicos, em termos da qualidade da própria produção dos álbuns. Essencialmente em termos do trabalho final, este é sem sombra de dúvida, e até agora, o álbum de ThanatoSchizO.

Se eu te pedir um adjectivo que defina o que este álbum é mais, em relação ao último, qual é o adjectivo que escolhes? Este álbum é mais...
Mais... mmm... haveria duas palavras...

Só podes escolher uma... (risos)
(risos) OK. Mais... mmm... mais maduro.

Em termos de estilo musical, como explicas a evolução da banda desde o «InsomniousNightLift» até este disco?
Acho que no fundo nós, ainda que sem termos decidido de forma expressa que assim seria, agarrámos nas partes mais ambientais do «InsomniousNightLift» e conseguimos torná-las agradáveis de tocar ao vivo. O que eu quero dizer, basicamente, é que o «InsomniousNightLift» foi um álbum que nos deu um enorme prazer criar e compor, mas provavelmente ao vivo perdia um bocado o interesse porque era se calhar demasiado ambiental. Ou seja, provavelmente era um álbum que funcionava melhor ouvido em casa do que propriamente tocado ao vivo. No fundo, nós pegámos nessa parte ambiental e progressiva do «InsomniousNightLift» e conseguimos acrescentar-lhes partes com maior dinâmica, que vão depois tornar os temas muito mais interessantes de tocar ao vivo.

Então pode dizer-se que o «Turbulence» é também o resultado do vosso amadurecimento enquanto banda que toca ao vivo?
Sem dúvida, porque ao estarmos na estrada a promover o «InsomniousNightLift» - e fizemos uma série de concertos - começámo-nos a aperceber que as pessoas gostavam dos temas, que as pessoas conheciam os temas, que reagiam bem aos temas, mas quer nós quer o público, se calhar precisávamos de um 'clique' que tornasse os concertos ainda mais especiais, ainda mais dinâmicos. E isso não acontecia, porque os temas se calhar eram demasiado parados, talvez... demasiado ambientais. Não quer dizer que tenhamos deixado de gostar do álbum - não. Apenas quisemos foi adicionar-lhe qualquer coisa que tornasse o material ainda mais interessante ao vivo.

Vocês portanto agora quando compõem já têm esse cuidado - de pensar nas situações ao vivo para os temas que estão a criar.
É uma coisa que não é propriamente pensada, mas como já andamos nisto há alguns anos, quando começamos a compor e quando estamos reunidos a criar material novo, se calhar essas coisas acabam por vir ao de cima de forma perfeitamente natural, sem ninguém dizer "atenção, vamos fazer isto assim, ou assado". Acho que é uma evolução natural e acontece sempre com muitas bandas assim.

Vocês mantêm a parceria com o Rec'n'Roll e com o Luís Barros. Porquê?
Como certamente já deves ter reparado, o som do álbum responde por si mesmo. Aliás, uma das reacções que nós temos obtido das pessoas que são confrontadas com o nosso novo disco - quer seja através da rádio, quer sejam as pessoas que sacam o mp3 do site, ou as pessoas que eventualmente compram o CD - a primeira reacção, ou pelo menos uma das três primeiras reacções é "bolas, isto não parece gravado no Rec'n'Roll!". Isto é uma questão que me perturba um bocado, desde há algum tempo, porque eu sempre defendi que o Rec'n'Roll era - e é - um excelente estúdio. Aliás, na minha concepção é o melhor estúdio para gravar este tipo de som em Portugal, e a prova disso é o «Turbulence». Principalmente desde as últimas modificações tecnológicas que o Luís Barros incrementou no estúdio - começou a gravar com o sistema ProTools, fez algumas alterações de fundo ao nível da estrutura do estúdio - o Rec'n'Roll está definitivamente com um patamar muito profissional. A escolha do Luís resulta precisamente dessa certeza e dessa garantia de qualidade que nós temos ao irmos lá gravar, e também porque foi daquelas pessoas com quem criámos uma empatia tão grande praticamente desde a primeira vez, quando lá gravámos o nosso EP - portanto este já é o quarto registo que lá gravamos - que era impossível mudarmos de produtor, pelo menos em Portugal.

Vocês não têm medo que o vosso som fique "agarrado" ao Rec'n'Roll, e que um dia que vocês tenham que mudar de estúdio ou de produtor, que o vosso som mude?
Não. Eu acho que ao longo dos nossos trabalhos, independentemente das produções terem sido melhor ou pior conseguidas, nós sempre nos distanciámos do típico som do Rec'n'Roll. O som de que toda a gente costuma falar, que é supostamente o som típico do Rec'n'Roll, não advém do produtor, mas advém provavelmente do facto de teres 10 bandas, por exemplo, a tocarem Death Metal, todas com bateristas abaixo do razoável, todas com maus recursos técnicos, todas a gravarem às três pancadas. E é natural que depois essas 10 bandas soem todas ao mesmo. Acontece que nós, desde o primeiro registo, nunca soámos nem ao mesmo, nem nunca soámos provavelmente - e perdoa-me se isto soar arrogante - como uma banda banal. Acho que nesse aspecto estamos um bocado livres do estigma do estúdio, seja ele um estigma positivo ou negativo. E acho que, independentemente do futuro nos trazer outros estúdios - lá fora provavelmente - vamos continuar a manter esse som característico, independentemente do sítio onde vamos parar.

Este é o vosso terceiro disco e vocês são neste momento, quer queiramos quer não, um dos mais respeitados e antigos colectivos da cena nacional. A que achas que se deve essa longevidade?
É estranho ouvir isso, porque no fundo parece que começámos há dois meses (risos). Eu acho que acima de tudo nós pertencemos a uma geração de grupos que surgiu por volta de 98/99 em que a própria filosofia do grupo - e há uma série de colectivos que eu consigo visualizar nessa linha, nessa 'new wave of, por exemplo, Portuguese death metal' - que tinha uma filosofia muito própria e cujos músicos tinham se calhar uma cultura geral acima da média... da média que até aí vigorava dentro do Metal nacional. E eu acho que acima de tudo nós conseguimos conservar o principal elemento que nos permitiu sobreviver, que era mantermo-nos unidos. E essa é se calhar a principal razão pela qual ainda cá andamos, e por sermos respeitados como tu afirmaste. Para além de nos mantermos unidos e de termos uma filosofia muito própria, completamente independente, conseguimos sobreviver a uma série de transformações que foram ocorrendo ao nível da indústria musical, nomeadamente começámos a utilizar a internet, que era uma coisa que até aí as bandas não faziam - aliás nós usamos e abusamos da internet para espalhar o nome da banda. E tudo isso, aliado ao facto de termos realmente amor por aquilo que fazemos, faz com que desde 1998 consigamos ter editado três álbuns, um MCD, continuamos a dar cerca de 20 a 30 concertos por ano, e as coisas vão resultando.

Vocês consideram-se mais os filhos dos Moonspell pela perseverança ou os filhos dos Genocide pela sonoridade?
É uma pergunta difícil... quer dizer, não é assim tão difícil quanto isso... é um bocado embaraçoso dizer isto, mas se há uma banda em Portugal que eu respeito muito - aliás, que todos respeitamos, mas mesmo muito - são os Moonspell. Os Genocide fazem parte de um núcleo de bandas que neste momento eu nem sei sequer se existem - sei que editaram dois álbuns e eu cheguei a ver muitos concertos de Genocide, até devido à proximidade geográfica, porque eles são da zona do Porto e nós estamos a cerca de 100 km do Porto - mas acho que em termos de filosofia da banda, da forma independente com que os Moonspell começaram... a forma como muitas vezes eles eram criticados, até, por se calhar serem tão profissionais e tão sérios naquilo que faziam... me identifica a mim, e de certeza absoluta aos meus companheiros da banda, com os Moonspell, porque sem dúvida que são a banda mais inteligente, mais sensata, com melhor gestão da carreira que surgiu em Portugal nas duas últimas décadas... ou melhor, sem dúvida que são a banda de Metal portuguesa que conseguiu chegar mais longe, e só isso já é um demolidor de barreiras impressionante, e de certeza que vão abrir - e já estão a abrir - caminho a um novo fluxo de bandas.

E como vês esse novo fluxo de bandas nacionais e a cena portuguesa hoje em dia?
A cena portuguesa... eu tenho uma posição bastante crítica em relação a muitas coisas... eu acho que na nossa cena há realmente algumas bandas interessantes, há algumas bandas que merecem ser apoiadas, há algumas bandas que lutam com todas as armas e com toda a força para conseguirem sobreviver, para conseguirem mostrar trabalho, para conseguirem dar concertos. Mas depois há sempre alguma coisa que está mal, independentemente das coisas nos últimos anos terem melhorado - e eu reconheço que elas melhoraram muito - ainda continuam a haver lobbies e grupinhos que continuam a asfixiar um sem número de projectos que vão surgindo. Ainda continua a haver, no fundo, uma 'máquina' que de certa forma corta as pernas a muitas coisas bonitas que podiam ser feitas em Portugal, e que não são. Porque eu continuo a acreditar que se houvesse capacidade, provavelmente intelectual, para fazer isso, nós podíamos ter no nosso país uma coisa como a que aconteceu na Suécia há uma série de anos, que era a 'new wave of Swedish death metal'. Nós podíamos perfeitamente ter um sem número de bandas a serem agrupadas em Portugal, a fazerem uma 'new wave of Portuguese death metal', por exemplo. Quem diz Death Metal, existem outros estilos se calhar, que podiam ser exportados em grupo. Porque a partir do momento em que saísse uma banda que pertencesse a esse lote, as pessoas iam ter interesse em conhecer as outras. E foi isso que aconteceu na Suécia, quando os In Flames e os Dark Tranquility começaram a ter sucesso naquele 'gueto' de sonoridade. Eu acho que se houver força de vontade - e a força de vontade por vezes não é só das bandas; as bandas têm que ter liberdade para crescer, têm que ter liberdade para se mostrar ao público, e isso muitas vezes não acontece. E se houvesse interesse de todas as partes, nós podíamos perfeitamente ter essa 'new wave of Portuguese death metal'.

O que falta, para isso aparecer?
Um bocadinho mais de transparência, um bocadinho mais de honestidade das pessoas, um bocadinho menos de sede de protagonismo por parte de quem não merece ter protagonismo - porque quem tem que ter protagonismo no mundo da música são os músicos, e só os músicos, no meu entender... e acima de tudo muita razoabilidade. Porque tudo isso junto, cria uma imagem de honestidade. E a partir do momento em que uma cena transpira honestidade e as pessoas se apercebem que ali há honestidade, então essa cena tem muito mais pernas para andar do que uma cena onde tudo é questionável, onde... eu vejo isso diariamente, porque eu dou aulas de música... e muitas vezes os miúdos chegam ao pé de mim com entrevistas de grupos portugueses e perguntam-me "olha, mas estes tipos pagaram para estar aqui?". Perguntas do tipo "então mas estes gajos não têm nada editado, e já têm uma entrevista aqui?". Ou seja, acabas por estar num clima em que toda a gente desconfia de toda a gente. É esse clima de desconfiança que perdura. E é lógico que numa cena onde tudo é questionável, onde se tu apareces vão logo questionar porque é que tu apareces, essa cena nunca na vida vai ter pernas para andar. Eu continuo a achar que se as pessoas certas tiverem o protagonismo certo, se houver mais honestidade e se as coisas forem feitas de forma mais clara, a nossa cena tem pernas para andar, porque há alguns grupos - que já começam a ser bastantes - com qualidade musical para isso.

É fácil para uma banda de Metal tocar ao vivo em Portugal?
É fácil para uma banda de Metal como nós tocar na zona norte, exactamente porque temos condições razoáveis. Se notares nós, desde o início da nossa formação, demos pouquíssimos concertos na zona sul, nomeadamente na zona de Lisboa. Isso é algo que nos entristece, de certa forma, porque nós gostávamos de ir tocar a Lisboa e aos arredores de Lisboa bastantes mais vezes. Mas é que, por incrível que pareça, as condições em Lisboa são mesmo muito más, comparadas por exemplo com as condições que nos são oferecidas para tocar na zona norte ou zona centro. É muito estranho... nós já tivemos algumas propostas para ir tocar a Lisboa em promoção a este álbum, que tivemos que recusar porque eram realmente absurdas... apesar das pessoas que estavam a organizar terem vontade de nos ver. Mas nos locais que eram, essas pessoas tinham realmente poucas condições para oferecer. E é um bocado triste, porque é a capital do país e acaba por ter muito piores condições que muitos locais espalhados pelo país, nomeadamente na zona norte. Mas respondendo claramente à tua pergunta, eu não acho que seja tão complicado assim tocar em Portugal para uma banda como nós.

Patrícia Rodrigues:
Qual é o conceito por detrás das palavras do «Turbulence»?

(suspiro) Isto é um pouco complicado, porque ultimamente tem sido mais difícil falar sobre isso... creio que a linha lírica continua basicamente a ser a mesma. Nós continuamos - quer eu quer o Eduardo - a abordar uma perspectiva interior do ser humano, do indivíduo. Portanto as letras são baseadas na nossa experiência pessoal, como é lógico, mas tentamos levar as pessoas, ao lerem, a conseguirem rever-se nas nossas palavras.

E achas que a turbulência é um factor de inspiração artística apenas para algumas pessoas, ou é um facto de criação artística em termos gerais, que pode funcionar bem como catarse dos nossos sentimentos?
Eu consigo escrever melhor quando estou mais triste, por exemplo... quando me sinto mais em conflito comigo própria, em conflito com o mundo, com os outros. Esta é apenas a minha opinião, mas acho que as melhores coisas que foram escritas, que existem, são de pessoas que não são propriamente pessoas harmoniosas, de pessoas que vivem em harmonia e em paz consigo próprias. Essas pessoas têm sempre alguma coisa 'de errado', são pessoas que sofrem de um certo desequilíbrio. Não estou a falar de desequilíbrio mental; estou a falar de desequilíbrio em relação a sentimentos, ao interior... é nesse sentido. Acho que existem poucas pessoas que conseguem escrever quando estão... há muitas pessoas que escrevem quando estão muito felizes, quando estão muito apaixonadas, mas as coisas mais pungentes, mais bonitas de se ler são precisamente aquelas que são escritas em momentos de profunda tristeza, de depressão se for preciso... em momentos de verdadeira tensão.

Então tu não consegues controlar o teu processo criativo... não consegues dizer "agora vou escrever uma letra", e sai-te a letra...
Não. Eu escrevo quando me apetece. Por exemplo, posso ir no metro a olhar para uma pessoa ou pura e simplesmente para o tecto, e às vezes surgem-me frases soltas daquilo que poderão ser letras. Mas eu quando escrevo nunca escrevo com o intuito de que seja uma letra. Não é esse o intuito. Eu quando escrevo é pura e simplesmente para libertar emoções, para libertar tensões, para expressar algo que me inquieta...

Então tu escreves coisas que não acabam nas letras de ThanatoSchizO...
Sim, eu tenho muita coisa que está fora das letras de ThanatoSchizO. Eu costumo escrever até bastante regularmente. Mas isso era impossível de colocar tudo em letras de ThanatoSchizO, porque as nossas letras até nem são muito extensas.

Então há possibilidade de um dia destes virmos a ler alguma coisa tua fora de um booklet de um disco da banda...
Por acaso já algumas pessoas me sugeriram que eu editasse um livro, mas quando muito seria um livro com pequenos textos, com farpas como eu lhes costumo chamar; não um romance ou um livro 'por inteiro'. Tinham que ser só pequenos textinhos, com pequenas histórias, provavelmente... ou de p

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