Press - Interviews
23rd June 2008
Interview for Loud!

EVOLUÇÃO EM CÓDIGO
Click for a larger view Click for a larger view Em processo de evolução musical contínuo desde a estreia «Schizo Level» em 2001, os transmontanos THANATOSCHIZO chegam este ano ao seu quarto álbum de originais, «Zoom Code», em que as influências étnicas deixam de ser subtis e a electrónica invade o espectro do death metal progressivo e melódico da banda. Altura para mais um ponto de situação com o guitarrista Guilhermino Martins sobre o novo disco, o recente contrato com a My Kingdom Music e o estado de espírito de um dos mais intrigantes colectivos do espectro nacional.

O «Zoom Code» é já o vosso quarto álbum de originais, uma marca a que poucas bandas portuguesas conseguem chegar. Como se sentem ao lançar este disco? Existe, de alguma forma, o síndroma do “mais um”?
Não. Não se trata de ser apenas mais um, porque para isso nunca teríamos sequer chegado ao segundo álbum. O que fazemos questão de criar é uma série de auto-motivações que partem obviamente da própria banda e que fazem com que nos tentemos superar no registo seguinte. No fundo aproveitamos as possíveis lacunas que, ao longo do tempo, vamos encontrando nos registos anteriores. Tentamos melhorar isso e, no fundo, superar-nos.

A vossa evolução de disco para disco é sólida e notável. Têm como premissa de composição acrescentar sempre alguma coisa que o último trabalho não tinha ou esta evolução surge naturalmente e é o reflexo de um colectivo em constante mutação artística?
Acho que, nesta altura do campeonato, já toda a gente percebeu que não somos uma banda normal e dificilmente vamos ter dois álbuns a soar exactamente ao mesmo. No fundo – como pessoas e músicos – temos evoluído naturalmente. Nesta altura se não temos todos 30 anos andamos à volta disso... é natural que, ao longo destes últimos dez anos, tenhamos começado a ouvir outras coisas e tenhamos tido uma série de experiências, como músicos e pessoas, que nos alargam os horizontes e o panorama em que nos movemos. Como a nível de composição não seguimos regras absolutamente nenhumas – ou seja, a tela está completamente em branco – e como as tintas na palete são tantas, é natural que a pintura acabe por ser sempre diferente. Consoante os anos vão passando e conforme vamos tendo mais tinta e mais cores, é apenas natural que a pintura também vá mudando.

Se algum dia o “quadro” sair igual ou demasiado parecido com outro que já tenham feito anteriormente, vão editá-lo à mesma?
Acho que o “quadro” nunca vai ser realmente igual, por isso essa situação nunca irá colocar-se. Uma das grandes motivações desta banda passa essencialmente por nos surpreendermos a nós próprios. Repetir uma fórmula é algo que cortamos pela raiz logo que isso surge na sala de ensaios. Para este álbum, por exemplo, começámos a composição e criámos seis temas, mas depois começámos a perceber que eram demasiado parecidos com o «Turbulence» e não acrescentavam nada de especial ao que fizemos nesse disco. Esses temas acabaram por ir todos para o lixo e posso dizer que, dessas seis canções, aproveitámos apenas um riff, que acabou por aparecer no «Zoom Code». Por isso a questão da repetição é uma coisa que nos desagrada completamente.

Contam com convidados especiais neste disco. Achas que contribuíram de forma decisiva para os temas em que entram? Se o Timb Harris não tivesse podido participar, por exemplo, a «L.» teria um solo de violino à mesma?
Provavelmente teria, mas não tão brilhante como o do Timb. No fundo acabámos por convidar pessoas que admiramos. No caso do Timb, é dos Estradasphere e dos Secret Chiefs 3, que são bandas que seguimos bastante de perto e que infelizmente não são assim tão conhecidas dentro do panorama do metal europeu – apesar de não serem estritamente bandas de metal. Mas acho que valeria a pena as pessoas descobrirem este tipo de propostas. Já numa fase bastante avançada da escrita do tema, percebemos que havia ali espaço para ter um solo de qualquer coisa. Começámos a ponderar e a primeira coisa que nos veio à cabeça foi um violino. Contactámos o Timb, ele mostrou-se interessado e disse que, desde que gostasse da música, teria todo o gosto em participar. Passado algum tempo, depois de fazermos uma pré-produção, enviámos-lha, ele gravou e enviou-nos o solo, dizendo de uma forma quase ingénua, de quem não estava muito confiante naquilo que fez, “Gravei isto à primeira; vejam lá se gostam”. Nós, quando ouvimos aquilo, ficámos completamente passados... é um solo tão real e genuíno e acho que se adapta tão perfeitamente ao tema que era inevitável não acabar no CD.

Um dos elementos novos deste álbum é o uso de electrónica, algo que até há bem pouco tempo era visto como heresia pelas vozes mais puritanas do metal extremo. As possíveis reacções ao que fazem em disco chegam a ser discutidas na sala de ensaio, quando os temas são criados?
As reacções externas não; as reacções internas naturalmente que sim. Tudo nesta banda é feito de forma bastante espontânea. Não há coisas demasiado pensadas, principalmente no processo de composição em que, como disse, a tela está completamente em aberto. Em relação às possíveis reacções negativas ao uso de sampling, é algo que não nos preocupa minimamente, até porque gostamos de bandas que utilizam este tipo de sonoridade. Portanto esses dogmas que felizmente têm sido, ao longo do tempo, arredados do metal nunca nos preocuparam. A prova disso é que, desde o início da nossa carreira, sempre utilizámos coisas que eram consideradas paradoxais no mundo do metal.

...Sem qualquer tipo de medo.
Sem qualquer tipo de medo... e a prova disso é que passados dez anos ainda cá andamos, continuamos a lançar álbuns e felizmente temos público para ouvi-los.

As discussões internas até existir um consenso em relação aos novos passos musicais a dar são muito violentas? As dores de crescimento são muito fortes?
Existem bastantes – porém sadias e salutares – discussões no grupo quando se trata de perceber qual o caminho que devemos trilhar a seguir. Por vezes somos capazes de estar uma tarde inteira sem pegar nos instrumentos, apenas a avaliar a pré-produção de um tema que tenhamos feito e a tentar perceber qual a forma de torná-lo mais apreciado por nós. A visão que temos das músicas que fazemos é que têm, acima de tudo, de reflectir os nossos gostos musicais. Por isso o facto de elas poderem ou não agradar a terceiros, no momento da composição, acaba por ser uma coisa perfeitamente impensável. Aquilo que queremos é sair da sala de ensaios com um mínimo de consenso entre todos que em determinada altura o tema está completo ou que é por ali que devemos levá-lo. Existem algumas discussões, mas encaro-as sempre como necessárias; é por isso que o nosso som nunca foi realmente muito “normal” e acho que essas discussões acabam por tornar as coisas ainda mais especiais.

Sei que essa não é uma preocupação da banda – especialmente no processo criativo – mas olhando para a evolução da vossa sonoridade, achas que faz com que os vossos fãs andem um pouco “atrás” daquilo que vocês andam a fazer em cada álbum e que isso pode fazer-vos perder alguns fãs pelo caminho?
Sinceramente não tenho essa ideia. A visão que tenho é de que os fãs têm crescido com a banda. Ou seja, aquelas pessoas que nos conheceram na altura do «Schizo Level» – ou mesmo na altura do EP «Melégnia», enquanto Thanatos – que nos começaram a ouvir a partir daí, que ficaram fãs e que começaram a comprar os CDs e o merchandising... tenho ideia que a grande maioria continua a comprar os nossos CDs e a aguardar com alguma expectativa pelos nossos lançamentos. É natural que existam sempre os descontentes; é natural que exista alguém que tenha comprado o «Schizo Level» e que não tenha gostado daquela cadência mais doom do «InsomniousNightLift». Ou é natural que existam pessoas que tenham conhecido a banda na altura do «InsomniousNightLift» e que tenham ficado, se calhar, menos contentes com a aproximação mais “pesada” do «Turbulence». Mas isso é – penso eu – uma pequena minoria.

Ao longo dos anos tens abdicado de uma certa posição de destaque na composição dos ThanatoSchizO em favor dos outros elementos da banda, especialmente do Eduardo. Sentes que a evolução musical do grupo deve muito a isso e foi complicado abrires mão dessa posição?
Não. Aliás, penso que uma das grandes ideias erradas que existiam à volta desta banda – e que de me deixa um bocado triste, ou deixava até há bem pouco tempo – era as pessoas pensarem que os ThanatoSchizO eram o Guilhermino. Isso é de todo falso, porque em termos estritamente musicais tenho tanto peso no processo de composição como o Eduardo, o Filipe, o Paulo ou qualquer outro elemento. No fundo, à medida que a banda foi evoluindo, é natural que toda a gente quisesse colocar o seu input nas músicas. E se o grupo percebia que – neste caso – o Eduardo tinha tanto talento para deitar cá para fora, era quase uma estupidez não o aproveitar. Quando as pessoas estão a ouvir o «Zoom Code» estão a ouvir um trabalho de seis pessoas – não estão a ouvir o trabalho só de uma ou duas.

Por outro lado, em termos de gravação parecem ser apologistas de não mexer em equipa ganhadora. A que se deve esta longa e estável relação com o estúdio Rec’n’Roll e com as masterizações do Tommy Newton?
A masterização feita pelo Tommy Newton é uma garantia de que o som vai sair como queremos, porque há um historial de trabalho comum entre o Tommy e o Luís Barros que nos dá garantias exactas de como o som final vai aparecer. A questão do Luís Barros... é uma pessoa que já conhecemos desde o EP «Melégnia» e sentimo-nos completamente à vontade com ele. De álbum para álbum os estúdios foram evoluindo e foram-se modernizando – ou seja, é quase como uma evolução mútua: à medida que a banda foi evoluindo também as produções foram evoluindo e os estúdios foram melhorando.

Nunca pensaram então como seria o com de disco A, B ou C se tivesse sido gravado noutro estúdio?
É lógico que isso nos passa pela cabeça. É lógico que é intrigante tentar imaginar como é que o som fluiria neste ou noutro estúdio. A questão é que, em termos práticos, até pela forma como gerimos a nossa carreira, sabemos que esta banda nunca vai acabar por dar um passo maior do que as pernas. É por isso que, aos poucos, as nossas produções vão melhorando, o estúdio vai melhorando e pelo menos até aqui não sentimos necessidade de mudar. Não quer dizer que no futuro isso não aconteça, mas um passo de cada vez.

Para este álbum assinaram contrato com a My Kingdom Music, de Itália. Que expectativas têm em termos de exposição internacional, com eles?
Uma das coisas que mais nos atraiu neste contrato é que, além da óbvia exposição internacional do álbum, também temos possibilidade de fazer alguns concertos pontuais no estrangeiro, que é uma coisa que nesta altura do campeonato nos interessa particularmente. É claro que, no fundo, esta vai ser a segunda grande experiência em termos internacionais depois de termos estado na Rage Of Achilles com o «InsomniousNightLift». Por esta altura já temos um bocadinho mais de “calo” em termos de negociar e trabalhar com uma editora – coisa que na altura do «InsomniousNightLift» ainda não acontecia porque eramos mais novos e “virgens” nesta coisa dos negócios – mas estamos com algumas expectativas para ver como é que o álbum vai vingar lá fora.

É uma coisa que te causa alguma mágoa, o facto de – provavelmente por serem portugueses – a qualidade da vossa música não ter repercussão que merece lá fora?
Não, bem pelo contrário. Até porque sinto, quando falo com adeptos de metal lá de fora, que existe um verdadeiro e genuíno interesse por bandas portuguesas porque, para o resto da Europa, o nosso país acaba por ser exótico. Uma banda de metal portuguesa acaba por ser ligada a um conceito exótico que causa algum interesse da parte do estrangeiro. Agora, se me perguntarem se sinto que as coisas podiam ser diferentes se a banda fosse, por exemplo, alemã... estando no centro da Europa era muito mais fácil termos exposição em termos de concertos, porque uma banda que está na Alemanha pode perfeitamente tocar numa série de países ali à volta sem grande esforço. Indo directamente ao assunto, é claro que sermos de um país periférico torna as coisas mais difíceis. Mas, por outro lado, também sinto que há um interesse genuíno, cada vez maior, dos fãs de metal a nível internacional por aquilo que é feito em Portugal – por ter o tal cariz exótico.

Ferna

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