Press - Interviews
04th July 2011
Interview for Versus Magazine

Após vários álbuns lançados, e no seguimento de alguns showcases acústicos nas FNAC, a banda de Santa Marta de Penaguião resolveu desenvolver essas formas diferentes de projectar o mesmo conteúdo. A Versus Magazine teve o prazer de conversar com o Guilhermino Martins, e saber o que está por detrás de «Origami».


Olá Guilhermino. Finalmente o “Origami” foi editado pela Major Label Industries. Houve alguns atrasos no lançamento – questões internas ou sentiram necessidade de dar mais uns toques nos temas?

Olá, Victor! Sim, a ideia inicial passava por editar este álbum bem mais cedo. Porém, à medida que o processo de gravação foi avançando, íamos sentindo cada vez mais necessidade de incluir uma ou outra participação dos convidados ou de alguns instrumentos menos óbvios, pelo que se tornou claro para nós que, mais importante do que cumprir o prazo previamente estabelecido, era concentrar esforços naquela que se tornou a nossa obra mais querida. É evidente que foi stressante ver o tempo a passar, mas a consciência do valor do que estávamos a criar foi superior a qualquer pressa.

Como está a correr a promoção ao “Origami”? Muitos concertos?

Tivemos, até agora, três concertos. Um num Teatro de Vila Real esgotado, outro no Hard Club e, o mais recente, no Teatro de Lamego. Os dois concertos nos teatros tiveram a participação da orquestra da Banda de Mateus, a qual também participou no álbum e, com isso, revestiram-se de adicional relevância para o público e, claro, para nós – pela magnífica experiência de termos uma orquestra sinfónica desta qualidade a actuar connosco. Nos três concertos apostámos igualmente na projecção de vídeos que enriquecem a experiência do espectador.
Em relação ao futuro, estamos bastante receptivos a convites, desde que se cumpram alguns requisitos dos quais não abdicamos. Por outro lado, há muito que optámos por dar menos concertos (tornando-os verdadeiramente especiais) a actuar frequentemente sob condições inferiores que, naturalmente, se repercutiriam na qualidade da prestação do grupo.

Este álbum não é, de todo, considerado uma compilação porque há um trabalho monstruoso por detrás dele, e por isso não é uma simples colagem de alguns temas bons. Queres contar, então, o que está por detrás de “Origami”?

As raízes deste desafio remontam a 2002, quando pretendíamos apresentar o nosso segundo álbum em showcases nas FNACs e, por limitações impostas, tivemos de rearranjar os temas desse CD para o formato acústico. Apesar de algo contrariados com a situação, a verdade é que, à medida que os temas iam sendo reformulados à luz dessa nova abordagem, o sentimento que floresceu em nós foi algo como “hum… nós até temos jeito para isto!”. Ora, a partir daí, todos os nossos álbuns foram apresentados nesse formato nas FNACs e foi sempre desafiante trabalhar nessa conversão de distorcido para acústico.
Depois de terminada a fase de promoção do nosso último registo, Zoom Code, chegámos à conclusão que o próximo passo desta banda teria de ser um álbum completamente focado nesse lado acústico/experimental/étnico, com abordagens alternativas aos temas dos nossos primeiros quatro CDs. Acima de tudo, porque era esse o caminho que mais nos estimulava enquanto músicos.  Eu próprio, apesar de consciente de que estes temas não são originais, encaro Origami como o nosso quinto álbum, de pleno direito.

Apesar do setlist apresentado ser bom, não sentiram que deixaram outras tantas igualmente boas para trás? Como correu esse trabalho de selecção e quais foram os critérios?

A verdade é que poderíamos ter escolhido praticamente outros doze temas da nossa discografia para registar neste formato. Repara: a partir do momento que transformámos um tema tipicamente black metal como a RAW numa canção étnica de cariz balcânico, tudo é possível! E a prova disso é que, ao vivo, andamos a apresentar um tema que não está em Origami: a Suturn, do nosso primeiro CD, cujo original tem uma tendência igualmente extrema, mas que ganha contornos próximos do free jazz com esta nova abordagem.
Não houve, por isso, um critério rígido nesta escolha, para além de que – naturalmente – pretendíamos cobrir toda a nossa discografia e, pronto, já sabíamos de antemão (em virtude da experiência obtida com os tais showcases nas FNACs) que determinados temas funcionariam melhor do que outros neste formato.

Como já é costume não dispensam em trazer convidados para participarem no vosso trabalho, e a lista é grande. Grande parte não faz parte do seio do Metal, mas já dá para perceber que para os ThanatoSchizo isso não é relevante, porque o importante é a obra musical. Com tanta gente a trabalhar foi difícil coordenar e organizar o trabalho?

É verdade! Para nós nunca foi importante que os convidados dos nossos álbuns estivessem ligados ao Metal. Aliás, a verdade é que as prestações mais memoráveis têm acontecido por parte de músicos fora deste meio. Por exemplo, o solo de violino do Timb Harris (Estradasphere, Mr. Bungle, Secret Chiefs 3) no tema L. do nosso álbum anterior constitui um dos momentos mais mágicos da carreira desta banda. Em Origami há outra participação que considero inesquecível, que é a do Hugo Correia dos portugueses Fadomorse, pela forma como adicionou ao tema (Un)bearable Certainty uma identidade tão especial.
É claro que ter tantos músicos convidados no álbum acabou por se tornar num pesadelo logístico, mas, com dedicação e algum rigor, tudo acabou por acontecer de forma natural, por forma a que a captação das suas prestações fosse o menos stressante possível, permitindo-lhes dar asas à sua criatividade.

Desta vez o Eduardo Paulo está nessa lista. Queres falar sobre essa súbita saída da banda?

A meio de todo este processo, o Eduardo comunicou-nos que a sua cabeça estava noutro lado. O interesse e a dedicação estavam a esmorecer e sentia que não nos devia prejudicar por isso. É claro que isso nos deixou num impasse. Porém, esse impasse durou exactamente um dia, que foi o tempo que levámos a decidir se a banda devia continuar e em que moldes isso iria acontecer. Passados uns dias já a Patrícia estava a gravar algumas das partes que, inicialmente, eram cantadas pelo Eduardo e o truque para ultrapassarmos esta situação foi encarar tudo isto como (apenas mais) um desafio, do qual poderíamos sair ainda mais fortes. Algo que, a esta distância, penso termos conseguido.

És tu que tomas conta das partes com voz masculina, tal como vi no vosso concerto no Hard-Club – e não estiveste nada mal. Futuramente é para te manteres como vocalista ou preferes ficares com os instrumentos mecânicos?

Obrigado! Não posso afirmar que me sinto completamente confortável na função de vocalista, ou pelo menos não tão confortável como no papel de guitarrista. Embora já cantasse vozes de apoio ao vivo há alguns anos, o processo de criação/adaptação das minhas linhas vocais no álbum teve momentos difíceis, que me obrigaram a suplantar nessa área.
No futuro, com este assumir das vozes principais de TSO por parte da Patrícia, não sinto grande necessidade de fazer repercutir as minhas vozes em mais do que meras aparições pontuais.

Já agora o que achaste desse concerto com os ManInFeast no novíssimo Hard-Club?

Foi um concerto interessante, embora o facto de não termos a Banda de Mateus em palco connosco – em virtude do parco espaço em palco – não o tivesse tornado tão especial como foi, por exemplo, o concerto no Teatro de Vila Real.
Os ManInFeast são, para mim, uma das bandas mais refrescantes do panorama musical transmontano, pelo que convidá-los para a primeira parte se tornou natural.

Gostaria de vos ver no Hard-Club com o vosso peso todo (risos). Já têm planos para o próximo trabalho, ou ainda é muito cedo para pensar nisso?

Embora estejamos embrenhados em todo o processo de promoção de Origami, já decidimos que, a todo o momento, vamos começar a tentar coisas novas na sala de ensaios. Diria, aliás, que, mais dia, menos dia, começarão a surgir esboços de temas novos, embora, por ora, seja realmente demasiado cedo para falar num próximo trabalho ou na sua orientação artística.

Acompanho o vosso trabalho desde o “Schizo Level”, e sempre vos senti como uma banda para lá dos limites, ou que tenta ultrapassar os estereótipos do Metal. É uma visão muito rica, mas bastante mais difícil, não?

Há, desde o início, uma vontade enorme neste grupo de fazer algo único, original e realmente especial. Ao longo dos anos temos incorporado elementos “exóticos” (no sentido de serem pouco comuns no universo do Metal), não pela necessidade de ser diferentes, mas porque as nossas influências musicais extravasam largamente este estilo. Como tal, é-nos natural adoptar nuances de outras áreas e trabalhá-las à nossa imagem. Nada disto é forçado, parte apenas da nossa necessidade de realização musical e a verdade é que seria bem mais fácil – até em termos de receptividade do grande público – adoptar uma postura mais conservadora. Algo que, conhecendo-nos como conheço, seria enfadonho e nos roubaria toda a dinâmica criativa.

Para quem acompanha, ou quiser acompanhar, o vosso trabalho pode-se notar um fio condutor que caracteriza a vossa identidade (felizmente não caíram nas teias do Metal mais moderno). Com a saída do Eduardo não acham que uma peça dessa identidade está em falta, ou facilmente contornarão essa dificuldade?

Dificilmente cairíamos nessa armadilha do chamado Metal Moderno. Se reparares, numa vertente estética, raramente andámos a par do que era considerado “in” em determinada época. A excepção será, claro, o Turbulence, que saiu na altura em que grande parte do público tinha acabado de descobrir os Opeth. Tirando essa coincidência, a nossa imagem, som e a própria estética da banda andaram nos antípodas das modas vigentes. Mais uma vez, não pela simples vontade de ser diferentes, mas apenas porque os nossos gostos raramente coincidiram com essas vagas.
Bem vistas as coisas, nunca fomos considerados a next big thing, mas a verdade – e talvez por isso - é que esta banda já tem cinco álbuns editados e continua a ser artisticamente relevante ao fim de quase 14 anos.
Quanto à saída do Eduardo, o trabalho dele enquanto vocalista e guitarrista de TSO durante quase uma década ajudaram a moldar o som da banda, mas não tenho a menor dúvida que a identidade deste grupo vai permanecer intacta e assumir contornos ainda mais estimulantes no futuro. Já são muitos anos a assumir desafios ou não fôssemos uma banda de Santa Marta de Penaguião.

Obrigado pelo tempo prestado, Guilhermino. Cumprimentos e tudo de bom para vocês.

Muito, muito obrigado, Hugo!

Victor Hugo

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