Press - Interviews
03rd July 2011
Interview for ÐÆΜΟΠΙ∨Μ

Podemos entender este "Origami" como um momento de viragem na música dos TSO? Pergunto isto porque de disco para disco assistimos a uma música mais directa da vossa parte…

Penso que esse ponto de viragem deriva não só de mais uma inflexão estilística que a nossa música transporta, mas do facto do Eduardo ter saído do grupo. Algo que origina naturalmente um repensar de conceitos e sonoridades.
Mas sim, no novo álbum fizemos o esforço consciente (e a palavra “esforço” não é usada aqui de ânimo leve, tal é a nossa tendência natural para ultra-orquestrar os nossos temas) de simplificar e manter os arranjos o mais simples possível. Penso que acabámos por nos superar e agora sinto que há em nós um certo conforto para lidar tanto com composições simples como carregadas de instrumentalização e diferentes camadas.

E encarar a capa como o desmontar de uma realidade ou o criar de bases para o que as criações que aí virão?

Encaro-a mais como a eterna possibilidade de nos excedermos, transportando-nos para um nível criativo superior. Foi isso que fizemos: pegámos nas folhas de papel (temas originais) e moldámo-os, por forma a criar doze canções ainda mais interessantes.

Neste disco também cantas. Opção a continuar para o futuro? A ideia faz mais sentido quando agora a Patrícia é voz dos TSO?

Não to sei dizer, por ora. A única certeza é de que os ThanatoSchizO têm um só vocalista principal, que é a Patrícia. Sinto-me mais confortável (apenas) com a guitarra, embora não descure apontamentos vocais ocasionais em futuros temas. É algo que, mais do que ser falado e discutido no nosso seio, se irá definir naturalmente, pela forma como os novos temas clamarem por este ou aquele registo.

Foi fácil gravar um disco neste formato? E a colocação de músicas ao vivo?

Não foi fácil por duas razões: primeiro, porque foi a primeira vez que nos autoproduzimos. No passado havia a figura do Luís Barros, em quem depositávamos a nossa confiança e, com isso, conseguíamos um aligeirar da pressão que, potencialmente, nos rodeava durante o progresso de gravação. Afinal era dele a responsabilidade máxima para que as coisas soassem bem e para que o melhor take fosse conseguido. Desta vez isso não aconteceu, pelo que houve repercussões naturais em termos de stress (particularmente o meu, uma vez que assumi os comandos da produção do disco).
Em segundo lugar, porque tendo convidado tantos e tão diferentes músicos, conseguir conciliar as agendas de todos acabou por se tornar um pesadelo logístico infame. Um risco que, a esta distância, se tem provado ter valido a pena assumir.

As músicas ao vivo – onde temos sido acompanhados pela orquestra da Banda de Mateus –têm sido relativamente fáceis de concretizar. Até pelo facto dos temas serem maioritariamente acústicos, as actuações acabam por se concretizar sem problemas de maior em termos da qualidade da prestação em palco.

Se fosse hoje colocariam mais alguma faixa, retirariam alguma das que dão corpo a "Origami"?

Eu não alteraria absolutamente nada no álbum. Neste momento, ao vivo, temos tocado uma faixa extra que é a Suturn (com uma roupagem jazzística) mas, mesmo gostando imenso da forma como o tema tem soado, não o incluiria em Origami. Não porque não seja compatível com todos os outros, mas porque encaro o registo como um todo único, que só faz sentido com o alinhamento, a produção, as vozes, os arranjos, os convidados e a capa que acabou por ter.

Há aqui uma "Portugalidade" que se estende por diversas faixas do disco. Foi um complemento ao lado menos eléctrico que o material iria conter?

Essa Portugalidade sempre esteve presente neste grupo, desde os primórdios. É curioso que, nos últimos anos, tenho assistido ao advento de um certo tipo de música portuguesa, que se refugia na ruralidade para marcar a sua posição mas que, em termos reais, acaba por assumir proporções de uma insipiência total. Quando os TSO utilizam um cavaquinho no primeiro tema do álbum, isso está na nossa herança cultural, sendo nós transmontanos. Não é algo a que subitamente achámos piada ou, por estar na moda em certos canais mediáticos, aproveitemos para “marcar pontos”.

Ao vivo não têm aquela tendência (leia-se vontade) de mudar de guitarras e ampliar os decibéis dos temas?


Nem por isso! Os concertos de promoção a “Origami” têm sido tão mágicos e tão especiais que não tenho sentido qualquer vontade de pressionar o botão da distorção (e, afinal, só está a 10 cm do canal limpo na pedaleira de efeitos). Cada coisa tem o seu tempo, espaço e, acima de tudo, razão de ser. A experiência que acumulámos ao longo de 13 anos permitiu-nos chegar aqui e concretizar este objectivo, com contornos tão especiais, pelo que desvalorizar isso e não aproveitar o momento seria um erro tremendo.

Já agora podem levantar o véu às novas faixas compostas?


Por ora só temos o esqueleto (e ainda muito primitivo) de um tema novo. A mim soa-me a TSO! Porém, ainda é muito cedo para percebermos a orientação que o novo material vai ter.


Hugo Guerreiro
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